quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Resenha e crítica pessoal de peças assistidas - por Ana Meri

"A Alma Imoral"
Monólogo de Clarice Niskier, baseado no livro do rabino Nilton Bonder, que trata de tema recorrente na história das civilizações: o correto, o justo, a moral social e a moral da alma.
Cenário e figurino mínimos para representar o máximo.
A atriz, vestida com um vestido frente-única preto e descalça, inicia no proscênio, contando em tom de diálogo, como surgiu a peça.
Em seguida traz uma cadeira preta minimalista e estende um grande pano negro no chão.
Despe-se, senta-se e inicia “o monólogo” de cunho filosófico, altamente reflexivo, deixando a platéia estupefata. Parece que as respirações foram suspensas.
Ela com naturalidade aborda o tema complexo. Gestual leve com os braços e voz tranquila.
É totalmente coerente a atitude com o texto. A moral social é a roupa que nos veste para convivermos entre semelhantes e díspares. Despir-se é transgredir essa moral. É deixá-la fora do nosso corpo e liberar nossa alma.
São várias as parábolas bíblicas abordadas na peça sob o conceito da reflexão.
A medida que novo assunto é colocado, a triz se envolve no pano preto, fazendo evoluções e dizendo o seu texto com suavidade.
Um belo espetáculo de coragem e beleza de conteúdo, numa estética audaciosa e simples.
Adorei!
Teatro São Luís, 01/09/11


"Memória da Cana"

Num espaço não convencional, as circunstâncias da peça são observadas desde a chegada do público. Baseada na peça Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, recebe tintas nordestinas oriundas de pesquisas do grupo e da obra do sociólogo, Gilberto Freire.
Na sala de espera há um ambiente montado como se fosse uma casa do interior do nordeste brasileiro. Parece ser de uma família de algumas posses que guarda sua história nas fotos e objetos. Mesas toscas com toalhas e banquinhos acomodam o público que espera para entrar no recinto do espetáculo. Velas são acesas em pequenos castiçais.
A peça inicia-se com a entrada do público, que se acomoda em arquibancadas laterais a uma enorme mesa de madeira, com alguns santos e bancos.
Em cada canto do galpão retangular, encontra-se um ator num pequeno cenário. Ali eles já desenvolvem uma performance que sugere seus personagens. A luz é difusa e o público acomoda-se atrás de uma espécie de véu, dando um tom de realidade distante ao espetáculo. Atrás do público, circundando a platéia, há vários pés de cana-de-açúcar.
O fato de cada pessoa sentar-se próximo a um dos elementos cênicos dá ao indivíduo uma visão particular do todo. É criativa.
Quando todos se acomodam, os atores iniciam os diálogos.
O tema dos conflitos familiares a la Nelson Rodrigues, beirando a sociopatia, se apresenta nas primeiras falas, às vezes com pouca verdade cênica.
Uma forte alusão ao sincretismo religioso católico e de umbanda se estabelece nos momentos de aumento e quebra de tensão.
O espetáculo é longo.
A percussão induz a tensão ou a calma.
Como se fosse o 2º ato, os véus que circundam a mesa central são derrubados por um dos personagens. A mesa é removida e lamparinas são acesas para compor o cenário do desfecho trágico.
O som é de um vendaval, provocando inquietude.
O esperado desfecho se dá sob  forte emoção dos personagens. Poética é a forma como a morte é apresentada: o personagem traz uma flor branca à boca.
Bem, eu não gostei. Há 30 anos me comoveria com o conteúdo e a forma. Acho válido para quem ainda não assistiu espetáculos “alternativos”, não convencionais.
Além de tudo, achei uma temeridade tanto fogo em cena com tanto material inflamável em volta. Causou-me desconforto.
O exagero nos gritos e nos gestos para enaltecer o conteúdo são óbvios e redundantes.
Espaço “Os Fofos”, 03/09/11

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